sexta-feira, 20 de maio de 2016

EM FRENTE À IGREJA DE SANTA LUZIA, SOB A SOMBRA DA SANTA HAVIA DOR.

VALEI-OS MINHA SENHORA, AINDA QUE NEM CATÓLICO SOU.

Sentados no chão, encostados ao muro, observo: quero ver o quanto são espertos...
Mas eram humanos em condição subumanas, havia desespero nos olhos. 
Senti a dor naqueles olhos, os dois pares de olhos. 
Me aproximo e olho, olho nos olhos... É, é lá que se vê a alma, 
que se discerne a mente, que se pode descobrir a verdade, e eu vi aqueles quatro olhos a dor.

Eram só olhos, meu senhor, olhos que se desesperam, olhos de desesperançados
Que recorrem em torno, olham ao entorno, querem clemência: 
era possível ver a fome naqueles olhos; eram só olhos

Nos braços magros de olhos, era visível o rosto velho marcado,
marcas do tempo misturadas a dor da desigual sorte, aqueles olhos
olham, não pedem para ganhar, 
aqueles braços se estendem por misericórdia, olhos sentem vergonha...

Vejo as dezenas de pernas apressadas, os donos delas passam e não notam, 
se notam não ligam. Quem sentiria pena, se não conhecesse a pena?
Valei-os Santa Luzia (ainda que nem católico eu seja), protegei-os:
Não sou santo, minha senhora, sou pecador, mas consigo ver a mentira nos olhos, 
só consegui ver dor naqueles olhos.

Há velhos magros braços estendidos, mas (exceto eu) ninguém os nota.
Os donos das pernas que passam ignoram o velho e a criança 
com seus magros braços. Nem se dão conta do terror naqueles
jovens olhos que se escondem no velho peito 
de um resto de velho homem cujo olhos não veem esperanças: 
Valei-os Santa Luzia... 

Me ouça, lha peço, ainda que nem católico sou: eu vi
aqueles olhos, quatro olhos. Ainda me olham, simplesmente olham.
Passa o tempo e aqueles olhos continuam.
Não, não eram charlatões, era a miséria, meu senhor,
naqueles olhos havia dor.

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